Haitianos enfrentam dificuldades para encontrar emprego em Cambé

Por Júlia Cristina da Silva

Em janeiro de 2010 uma série de terremotos atingiu o Haiti, provocando muita destruição, mortes e deixando muitas pessoas feridas e desabrigadas. Diversos edifícios, casas e estruturas muito importantes do país desabaram. Desde a tragédia o país enfrenta dificuldades para se reerguer e quem mais sofre com isso é a população que acaba buscando outros países para tentar uma vida melhor. Cambé é uma cidade que atualmente abriga um grande número de haitianos, mas o maior problemas que eles enfrentam para se manter aqui é a falta de emprego.

Família separada

Joselene Saint- Fleur, de 33 anos, presenciou o terremoto e perdeu o pai na tragédia. Há um ano decidiu sair do Haiti para tentar uma vida melhor com o marido, no Chile. Seu marido ficou naquele país e ela veio para Cambé com seu filho de um ano e meio. Segundo ela, ao chegar aqui teve o suporte da entidade Cáritas Arquidiocesana de Londrina e da Associação dos Movimentos Imigrantes Haitianos do Brasil (AMIHBR) de Cambé para encontrar uma casa para morar, mas desde então não encontrou emprego e sobrevive com o dinheiro que o marido manda.

”Eu preciso trabalhar e conseguir juntar dinheiro para unir a minha família de novo. Quando saí do Haiti, minha mãe continuou lá e eu ajudo ela a se manter também”, conta Joselene. Ela é enfermeira formada, mas quase não fala português. O idioma oficial do seu país natal é o francês, e, de acordo com ela, a língua é uma das principais empecílios para arranjar um emprego por aqui, além da dificuldade de encontrar uma vaga para o filho na creche.

Longe dos filhos

Marie Dieula Vilna, de 48 anos, trabalhava no Haiti como vendedora e chegou em Cambé há 7 meses. Segundo a haitiana, depois do terremoto ficou muito difícil para viver no país e sua família passou por muitas dificuldades financeiras. Ela é casada e tem três filhos, mas veio sozinha para Cambé a procura de trabalho. ”Sinto muita falta da minha família, se eu conseguir trabalho aqui, vou manter minha família melhor no Haiti até eu conseguir voltar e ter uma vida normal”, explica Marie.

Fundou uma associação

Jummy Cateur Dazuma chegou ao Brasil em 2012 e um ano depois trouxe sua esposa. Jornalista e radialista profissional no Haiti, Dazuma já trabalhou em uma rede de supermercados, com construção civil e hoje, em uma loja de fast food no shopping Catuaí, mas o seu sonho mesmo é continuar exercendo sua profissão aqui no Brasil.

Em 2017, Cateur fundou a AMIHBR para unir os imigrantes que vivem na região e ajudá-los a ter uma vida normal no Brasil. “Muitas vezes os recursos são retirados do próprio bolso dos membros para ajudar os imigrantes que precisam. Estamos em busca de mais condições para ajudarmos mais pessoas”, explica.

O fundador da Associação entra em contato com frequência com a Agência do Trabalhador de Cambé para encaminhar os haitianos na mesma situação que Joselene e Marie para vagas de emprego, mas não tem muito sucesso. ”Tenho uma relação de nomes que encaminho para a Agência do Trabalhador para tentar encaixá-los no mercado de trabalho, mas tenho pouco retorno”, conta Dazuma.

Dificuldades com o idioma

O secretário de Trabalho, José Aparecido Rolim, explica que a Agência tem se esforçado para encaminhar os haitianos às vagas disponíveis. ” Nós organizamos um dia todo de atendimento exclusivo para os haitianos que procuram a Associação e encaminhá-los às vagas, porém uma das principais dificuldades que eles encontram é a comprovação da experiência de trabalho que eles tiveram no Haiti. A adaptação à língua portuguesa também tem sido um empecilho”.

Algumas escolas oferecem aulas gratuitas de português aos haitianos que vivem em Cambé, como o Olavo Bilac e a Escola Municipal Professora Lourdes Gobi. Mas, de acordo com Dazuma, os haitianos também têm dificuldade de se adaptar às aulas porque o nível de escolaridade de quem participa é variado e todos recebem o mesmo conteúdo. ”Alguns têm ensino superior, outros só o ensino fundamental, alguns não tem nem o ensino fundamental. Eles se queixam da falta de professores que os ensine de acordo com o nível de escolaridades deles”.

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