GUERREIRAS: Mulheres inspiradoras

Por Julia Cristina da Silva

O Dia Internacional da Mulher foi oficializado em 1975 pela Organização das Nações Unidas (ONU) para lembrar as conquistas políticas e sociais pelas quais as mulheres lutaram constantemente desde o início do século 20 nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, a data é muito relacionada ao incêndio ocorrido em 25 de março de 1911 na Companhia de Blusas Triangle, em Nova York, quando 146 trabalhadores morreram, sendo 125 mulheres e 21 homens, segundo a BBC.

Em 8 de março de 2019, a luta das mulheres por um mundo mais igualitário continua e, mesmo não participando ativamente de protestos e manifestações, dentro de cada mulher há uma guerreira, que contribui com pequenos ou grandes gestos, por meio da sua luta diária, para transformar o mundo em um lugar melhor. Algumas histórias de mulheres inspiradoras da cidade de Cambé serão contadas a seguir.

Com grande vontade de transformar o ambiente em que vivem, elas são algumas das milhões e milhões de mulheres que merecem o nosso reconhecimento no dia 8 de março e em todos os outros dias do ano por nunca desistirem de lutar por um mundo melhor.

Dona Vera Lúcia e o cuidado com o meio ambiente

Mãe de duas filhas e avó de quatro netos, a cambeense Vera Lúcia de Lima, de 62 anos, deixou de trabalhar há alguns anos por causa de uma dor forte na coluna e no quadril, mas sua vontade de cuidar do meio ambiente e enfeitar o bairro onde mora superou suas condições físicas. Há duas semanas resolveu limpar o canteiro em frente à sua casa na rua Asa Sul, no Jardim Alvorada, e transformar o espaço.

Além das plaquinhas com frases motivacionais instaladas no pé de manga, para melhorar o dia de quem ler o que está escrito, dona Vera Lúcia plantou flores em pneus coloridos ao redor para dar mais vida ao canteiro. “Aqui vive cheio de entulhos e eu já estava incomodada com isso. Resolvi pedir a ajuda da minha filha mais velha e meu genro para limpar e melhorar esse lugarzinho. Fizemos as plaquinhas com materiais e tintas que eu tinha em casa, pintei os pneus velhos e plantei as mudinhas que eu já tinha no quintal”, conta.

“Moro aqui nesta casa há 20 anos, ela foi dos meus pais e eles deixaram ela para mim. Cuidar desse lugar é dar continuidade ao amor que eles tinham por aqui e ainda motivar o restante dos moradores a manter a cidade bem cuidada, porque isso é responsabilidade deles também”, explica a moradora sobre o motivo de tanto zelo.

Vera Lúcia também se dispõe a fazer a limpeza das redondezas da sua casa todo sábado de manhã, recolhendo entulhos que acumulam água parada. Ela explicou que gostaria que os outros moradores do bairro tivessem a mesma iniciativa. “Se eu tivesse a ajuda de todos do bairro, transformaria essas ruas inteiras. Minha ideia também é incentivar as pessoas, fazer com que elas contribuam de outros modos para melhorar a cidade”.

A atitude com o canteiro tomou conta das redes sociais e a moradora do Jardim Alvorada ganhou muitos admiradores por meio de uma publicação no Facebook de sua filha Mara. Segundo ela, a atitude de sua mãe é de se admirar. “Essa mulher é um belo exemplo de que realmente uma atitude faz toda a diferença”, diz na publicação.

Odete Porfírio, indígena que lutou para cuidar dos filhos sozinha

Dona Odete Porfírio, atualmente com 88 anos, é filha de um Caingangue com uma Guarani. Ela nasceu e viveu em uma reserva indígena em São Jerônimo da Serra até o início de sua adolescência com seus avós. Morou em São Paulo, Londrina, Uberlândia e desde que chegou em Cambé, há 27 anos, não saiu mais daqui e criou seus quatro filhos praticamente sozinha em sua casa no Novo Bandeirantes.

Trabalhando como doméstica a vida toda para cuidar dos filhos, Odete passou por um casamento conturbado. Seu ex-marido teve problemas com bebidas e foi um pai muito ausente. “Meus filhos não tinham nem roupa para ir à escola. Trabalhei fazendo serviço de limpeza em outras casas para poder manter as quatro crianças na época”, conta.

Um dos filhos de Odete teve paralisia quando criança e precisa de cuidados até hoje. Ela sempre lutou para ir atrás do tratamento dele. “Desde quando ele foi diagnosticado com paralisia, corri para São Paulo várias vezes para conseguir algum tratamento. Nunca desisti de dar o meu melhor para nenhum dos meus filhos”, afirma.

Hoje, aposentada, mora sozinha ainda na mesma casa no Novo Bandeirantes e se dedica vender artesanatos, como pano de pratos e patchwork, para continuar ajudando os filhos e os netos. “Fui pai e mãe dos meus filhos na maior parte do tempo. Com muita luta e sozinha consegui fazer eles estudarem e hoje cada um tem sua vida e suas famílias. Com força e luta a gente consegue muita coisa”.

Luana Pereira, primeira mulher a comandar o Corpo de Bombeiros de Cambé

No dia 6 de abril de 2018, Luana da Silva Pereira assumiu o comando do Corpo de Bombeiros de Cambé. Natural de Curitiba e com 28 anos, ela é a primeira mulher da história a ser líder da corporação. Desde então, ela tem a responsabilidade de gerenciar os 18 bombeiros da unidade e administrar todas as atividades do Grupamento.

Inspirada por seu pai, policial militar, o sonho de ser bombeira vem desde a infância. Sua carreira começou com 21 anos, em 2012, quando ingressou no Curso de Formação de Oficiais Bombeiro Militar (CFO). Segundo Luana, estar hoje no comando de uma Unidade Bombeiro Militar é uma grande honra e resultado de muito trabalho. “ Para mim, estar à frente do Corpo de Bombeiros de Cambé hoje significa que fui reconhecida pelo trabalho que desenvolvi durante os três anos no Grupamento. Isso me motiva a sempre continuar fazendo o melhor”, declara.

Quando questionada sobre mulheres em posições de liderança, a tenente explicou que atualmente há muitas que ocupam essas posições, mas que há um tempo atrás isso seria impossível. “Temos exemplos na liderança de países que são potencias mundiais, nas forças armadas federais, forças policiais estaduais, ministério público, grandes empresas, e em inúmeras outras instituições. Os exemplos estão em todos os lugares, as mulheres têm demonstrado seu valor e estão colhendo frutos de seu próprio trabalho, alcançando o reconhecimento merecido, que há muito tempo foi negado”, destaca.

De acordo com ela, toda mulher deve acreditar que é capaz e que pode desempenhar qualquer função. “ As posições de liderança devem ser ocupadas por àqueles ou àquelas que forem mais capacitados para desempenhar tal função, indiferente de gênero. Nós mulheres não podemos deixar ninguém dizer que não conseguimos e mostrar que somos capazes sim”, completa.

Dolores e a luta pela causa animal

Dos 52 anos de Dolores do Carmo Osseti, 40 ela passou lutando pela causa animal e continua até hoje. Também trabalhou muitos anos como comerciante, mas teve que deixar o trabalho para cuidar da mãe doente. Hoje ela doa a sua vida à família e aos cachorros que pega das ruas em situação de maus tratos e abandono para destiná-los a adoção.


Ela faz parte do projeto “Pedindo Ajuda” com mais seis voluntários. Além de abrigar os cachorros em sua casa no Jardim Novo Bandeirantes – no momento 10 filhotes – ela ajuda a manter mais uma casa no Jardim Santo Amaro com 16 filhotes e faz constantes reuniões com a Prefeitura de Cambé e outras instituições que possam ajudar a manter os animais.


“Tenho três filhos e uma neta e ainda cuido da minha mãe, cuido de todos, tenho uma rotina bem agitada. Mesmo com meu dia todo comprometido eu dou um jeito de participar de reuniões, encaminhar para adoção os filhotes que resgato e fazer parcerias para conseguir ração e os recursos necessários”, explica Dolores sobre o seu dia a dia.

Segundo a ex-comerciante, seu amor pela causa começou na infância, quando ganhou seu primeiro cachorro de estimação. “Eu tinha 12 anos quando meus pais me deram o primeiro cachorrinho. Eu gostava de acompanha-lo no veterinário e observar como cuidar dos animais. Desde então eu faço o máximo que posso por animais em situação de maus tratos e abandono”, conta.

Dolores contou que além da falta de recursos para atender o grande número que há de cachorros em péssimas situações pela cidade, um outro obstáculo é o machismo de donos ao receber uma mulher para buscar o animal em residências com condições precárias. “Infelizmente, por eu ser mulher, no ato de resgate dos cachorros, sou recebida com certo deboche de alguns donos e não sou respeitada como deveria ser”, afirma.

Mas, diante da vontade de lutar pela causa as dificuldades desaparecem. Ela não vai desistir e acredita que com amor e educação tudo pode melhorar. “Nunca desisti e não vou desistir. Acredito que o que me fez conseguir ajudar e cuidar de tantos animais foi a minha resistência aos obstáculos que surgiram e o jeito de lidar com as situações, com força e dedicação”, completa.

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