Filho de indígena luta para se tornar médico em Cambé

Por Júlia Cristina da Silva

Gilberto e os filhos

Filho de uma indígena pura, Gilberto Ribeiro de Amorim, morador do jardim Novo Bandeirantes em Cambé, é um dos 12.348 indígenas que cursam graduação em universidades públicas no Brasil. Hoje, com 43 anos, casado e com três filhos, cursa Medicina na Universidade Estadual de Londrina (UEL), para se tornar especialista em Saúde da Família e está a um ano e meio de se formar. Com uma história de luta árdua e persistência contra a discriminação, o seu objetivo é dar uma vida melhor à sua mãe, mulher e filhos.

Gilberto nasceu em Uberlândia, Minas Gerais, e migrou para Cambé aos 7 anos com pai Messias Ribeiro de Amorim, nascido na Bahia, e a mãe Odete Profírio, uma indígena filha com ascendência nas etnias Guarani e Caingangue. Sua mãe viveu em uma reserva em São Jerônimo da Serra até o começo da juventude, lugar onde conheceu o futuro marido aos 11 anos de idade.

Sua infância também não foi fácil. Segundo dona Odete, o ambiente em que Gilberto e seus outros três filhos cresceram foi difícil. O pai era ausente, tinha problemas com bebida e ela acabou tendo que trabalhar como doméstica para conseguir manter a casa com os filhos no jardim Novo Bandeirantes. “Fui mãe e pai dos meus filhos. Eu trabalhava o dia todo fazendo serviços nas casas, sempre tivemos dificuldades financeiras, meus filhos não tinham roupa e tiveram que começar a trabalhar muito cedo pra me ajudar”, conta.

Lion e Arcanjo

Seu filho, Gilberto, começou a trabalhar aos 13 anos, ao mesmo tempo que se dedicava a aprender a tocar vários instrumentos musicais com a ajuda de uma igreja evangélica. Com aptidão e talento iniciou uma carreira como músico até os 31 anos, dando aulas particulares. “Eu até tentei ingressar na graduação de música, mas não consegui por causa da base teórica que eu não tinha, então eu descobri que havia a possibilidade de entrar na faculdade pelo vestibular indígena”.

Gilberto explicou que a UEL e a Universidade Federal do Paraná (UFPR), são as instituições da região onde é mais fácil e acessível ingressar pelo vestibular indígena, mas teve obstáculos para conseguir. “Eu não morava na reserva e não era puro igual os outros indígenas, tive dificuldades com a FUNAI para conseguir ter o direito de fazer o vestibular. Tentei fazer em 2006, mas só consegui entrar em 2009”, conta. A FUNAI, Fundação Nacional do Índio é o órgão indigenista oficial do Estado brasileiro e é a coordenadora e principal executora da política indigenista do Governo Federal.

“Quando ingressei na faculdade, com 33 anos, foi pelo curso de enfermagem na Federal do Paraná, pois, depois da música, sempre tive muito interesse pela área da saúde. Fiquei um ano em Curitiba, mas eu já estava casado e com dois filhos, tinha que trabalhar para mandar dinheiro para cá e ainda para me manter lá. Então tive que novamente conversar com representantes da FUNAI para conseguir transferir a minha matrícula para Londrina”, conta o estudante sobre as dificuldades que passou ao morar longe da família.

Quando conseguiu transferir sua matrícula para a UEL, em 2010, haviam vagas disponíveis para o curso de medicina e ingressou na graduação para se tornar um médico. Além das dificuldades financeiras, Gilberto também luta constantemente contra a discriminação. O que antes aconteceu por ele não ser um indígena puro, agora acontece por ele ser um indígena e estar em uma instituição do ensino superior. “Logo que eu entrei, já ouvia de outros alunos que eu não ia aguentar por muito tempo e sempre tive que provar que eu conseguia passar nas matérias por que eu sabia e não por que eu simplesmente decorei. Por pertencer a um grupo diferente, você sofre. Esse foi o principal motivo de eu ter tanta dificuldade em concluir todas as matérias no tempo correto”, explica.

Dona Odete, mãe de Gilberto

Para Dona Odete, as provações que o filho enfrentou e as batalhas diárias que ainda luta é razão de um grande orgulho. “O Gilberto sempre foi muito inteligente, curioso, ativo, e quando começou a frequentar a igreja e outros ambientes, começou a ter um olhar diferente e querer ter sua casa, seu carro e toda a sua independência. Ele é uma pessoa muito correta, fala o que pensa e gosta de tudo na ponta da caneta. É uma honra ter um filho guerreiro como ele, sou a índia mais feliz do Brasil”.

Gilberto é casado com Claudinéia dos Reis Amorim com quem teve três filhos: Lion Amorin, de 17 anos, Arcanjo Amorim, de 14 e Angela Amorim de cinco anos. Ele passou o que sabia de música para seus filhos e hoje Lion e Arcanjo também sabem tocar vários instrumentos musicais.

A luta de Gilberto é para dar uma vida melhor à sua família, e, ao ser questionado sobre o principal motivo de ele não ter desistido, ele listou cinco. “Primeiro: não quero ser como meu pai e fracassar com a família, segundo: eu quero ser como a minha mãe, porque ela nunca desistiu, terceiro: meu irmão, que tem deficiência e apesar de tudo, nunca desistiu, a quarta coisa que não me deixa desistir é Deus e a quinta é que eu acredito que eu tenho uma missão na vida e nessa jornada, eu consegui inspirar muitas pessoas”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


%d blogueiros gostam disto: